MINÚSCULO
O jardinheiro viu, na minha garagem, que o pneu dianteiro do lado direito do meu carro estava vazio. Anunciou, então, que ia buscar o aparelho para encher o pneu. Pegou no seu veículo e trouxe uma caixa de onde tirou um dispositivo eletrônico menor e menos fino do que um tijolo. Embutida uma chave seletora para carro e bicicleta e uma mangueira curta com a peça para encaixar no bico da válvula. Ligou e em poucos minutos o pneu estava cheio. Corri para o borracheiro, que encontrou um parafuso enfiado na banda de rodagem. Retirou e fez o conserto a frio, não precisando nem desmontar a roda. Quando comentei sobre o aparelho do jardineiro que eu não conhecia, ele me disse que é possível comprar pela “internet” e custa uns 120 reais. Alertou-me, contudo, que se o defeito for um furo grande não funciona. Dei sorte porque o que deixara o meu pneu no chão era minúsculo.
COMPLICAR
O jornalista Carlos Alberto Sardenberg levantou uma questão que julgo interessante. É a diferença entre Jornada de Trabalho e Escala de Trabalho. A PEC do governo federal quer a redução do período semanal de trabalho de 6 para 5 dias, com aumento para 2 dias de descanso. Acontece que a Jornada de Trabalho é cláusula pétrea da Constituição, com o estabelecimento de 8 horas diárias e 44 horas semanais. Quanto à Escala de Trabalho, já temos no país 5x2, 6x1 e 12x36. Elas são regulamentadas pela Consolidação das Leis do Trabalho e dependem de acordos coletivos e do setor. O jornalista julga que a mudança nem precisaria de Proposta de Emenda Constitucional, que precisa de 2/3 dos votos na Câmara e Senado para aprovação e que uma Lei Ordinária, aprovada só por maioria simples, seria suficiente. Mas, por que facilitar se podemos complicar?
URNA
Cada vez me convenço mais de que o Lula é um cabra de sorte. Até a não aprovação do Jorge Messias para o STF que ele havia indicado pode ter sido benéfica para ele. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ficou de mal com o presidente e sentou em cima da proposta de fim da Escala 6x1. O tempo passou, Lula mandou pesquisar e vai explorar o petróleo encontrado na costa do Amapá, terra do Alcolumbre, que já passou a ser chamado de Sultão de Macapá. Houve um almoço no Alvorada e, como não tem almoço de graça, o senador amapaense saiu disposto a tocar em frente projetos lulistas. Já aprovado por larga maioria na Câmara Federal, poucos senadores irão se opor à aprovação e promulgação da PEC de grande efeito popular. Um belo presente para a campanha do Lula e na hora certa. Se tivesse sido aprovada logo após a vitória na Câmara dos Deputados, em 27 de Maio, três meses depois o povo e os eleitores já teriam esquecido do fato auspicioso. Agora a comemoração pode ser feita na boca da urna.
ORÇAMENTÁRIA
Acompanhei no Jornal Nacional a entrevista do candidato mais jovem que quer ser presidente da república. Renan Santos começou dizendo que, eleito, vai providenciar a construção de bomba atômica e elencou uma série de ideias utópicas. A única proposta que gostei e que acho possível de ser realizada foi a de desvinculação da obrigatoriedade de percentuais para a Educação e a Saúde. Na sua opinião, numa cidade gaúcha em que a população envelheceu e diminuiu a natalidade deve-se aplicar mais na área da saúde e menos na da educação. Já no Mato Grosso, numa cidade que está atraindo mais habitantes em busca de trabalho, acompanhados das famílias, a situação é diferente. Concordo com ele. Não vejo qualquer chance dele subir a rampa. Mas o eleito poderá aproveitar o seu projeto da desvinculação dos 25% da receita de impostos dos Estados, Distrito Federal e Municípios para o Ensino e de 15% para a Saúde.
POEMAS
Fazia tempo que eu não abria “O Dom de Casmurro”, do meu amigo José Endoença Martins. Fui ver o que estava acontecendo com o nosso herói no seminário. Ele, catarinense, fez amizade com um carioca, um paulista, um mineiro e um goiano. Todos seminaristas negros, poetas e de cabelos “blackpower”. Um dia, como, nas suas leituras e aulas de literatura, sabiam desde o romantismo, que os poetas falavam de mulheres sugeriu que faltava uma musa para sua inspiração. Todos o olharam com a surpresa da indignação. O goiano informou que mulher era tabu ali. O carioca emendou que não tinha modelo real de mulher. O paulista se manifestou: “Temos sim. Temos freiras e mais freiras que pululam por aqui”. Os outros quatro trocaram olhares reprovadores e o paulista retirou a sugestão. Retirou seu palpita sobre freiras. É que tinha uma tia clarissa e achava que ela daria bom material para alguns poemas. O mineiro então disse que não era um palpite mas uma pergunta: “E as nossas mães?”. O goiano discordou: “Não mete a mãe nisso. Mãe é sagrada, vamos preservá-las”. O catarina voltou a se manifestar: “Amigos, precisa ser mulher da nossa idade. Meninas ingênuas como nós e bobinhas, como serão os nosso poemas”.
CAPÍTULO
Foi então que chegaram a um acordo. Iriam dar uma escapada até a cidade, ver as meninas e estudar seus modelos. Arquitetaram plano para saída coletiva sem problema com o Padre-Prefeito. Foi um desastre. Apanhados no meio do caminho, foram recambiados na Kombi dos padres. O castigo pela ousadia: três dias de silêncio. Foi uma vergonha homérica, cinco caras pretas, com caras de bestas fazendo as refeições em pé – café da manhã, almoço e janta durante três longos dias. Os outros colegas lhes impingiram o apelido de Cinco Poetas Silenciosos. E o apelido pegoou. Os Cinco Poetas Silenciosos fizeram furor nos corredores do seminário quando encontraram seu modelo de mulher. Nem precisaram ir muito longe, nem correram riscos desnecessários com fugas desnecessárias do campus. Quem quiser saber qual foi a solução encontrada leia o próximo capítulo.
Comentários
Postar um comentário