LEITORES

 


Quando vi o nome José Boiteux, de uma cidade catarinense, fiquei curioso para saber quem foi o ilustre descendente do povo gaulês. Procurei e não descobri. Agora, lendo o “Livro Sobre Livros”, do pranteado Enéas Athanázio, que também estranhava a pouca divulgação da sua obra, acabei conhecendo bastante sobre ele e quero compartilhar com meus leitores.


LUGAREJO


José Arthur Boiteux (1865-1934) foi uma figura múltipla e realizadora que se destacou na nossa cultura. Professor, escritor, jornalista, historiador, deputado estadual e federal, secretário de estado e desembargador. Como representante do judiciário, acompanhou o governador Adolfo Konder na célebre “bandeira” que empreendeu pelo Oeste de Santa Catarina para demonstração ostensiva de posse e contato direto da autoridade com o povo da região. Othon D’Eça, que também participou da empreitada, em seu livro “Aos espanhóis confinantes” narra que José Boiteux foi encarregado de fazer o discurso de despedida de um lugar ermo, montado num burro preto, calçando botas até os joelhos e chapéu de abas largas. Em linguagem castiça e voz eloquente, que ecoou por morros e matos, falou para os ressabiados moradores do lugarejo.


IMPRENSA


Apesar da sua importância no panorama cultural de uma época e como homem público em nosso Estado, José Boiteux tem merecido reduzidas manifestações, críticas e escassos informes biográficos. Enéas Athanázio comenta que jamais encontrou um biógrafo que o retratasse de corpo inteiro e os dados publicados sobre sua vida em alguns livros são desencontrados e lacônicos. Nem nos dicionários e inciclopédias é citado como merece e há até os que nem o mencionam. A Fundação José Boiteux, em Florianópolis, se esforça para manter viva a memória do seu patrono. A sua obra, em livros, está esgotada de longa data e colocar a mão em alguma delas é tarefa deveras difícil. Não existe até hoje um levantamento completo da sua produção, incluindo o que foi publicado na imprensa.


FICÇÃO


José Boiteux muito se empenhou para reativar o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e foi um dos fundadores da Academia Catarinense de Letras, integrando a chamada “Geração da Academia”. Fundou o Instituto Politécnico, embrião do ensino superior catarinense. Produziu inúmeros trabalhos jurídicos, jornalísticos e históricos, bem como discursos, palestras e conferências. Mais duradouras foram suas obras de ficção.


INFORMAR


Entre as realizações de José Boiteux ressalta a criação da primeira Faculdade de Direito de Santa Catarina, da qual foi insprador e fundador, com o nome esdrúxulo de Centro de Ciências Jurídicas, em 11 de Fevereiro de 1932. A faculdade está integrada à UFSC e durante muito tempo manteve o Prêmio Desembargador José Boiteux, que Enéas Athanázio teve o prazer de receber na sua formatura. Na Rua Esteves Júnior havia um busto do fundador, cujo destino não soube informar.


AMIGOS


Enéas Athanázio conta que recebeu de presente do jornalista e poeta José Roberto Rodrigues, o nosso Zé Rodrix, um pequeno livro que é uma raridade. Como estava bastante estragado, mandou restaurar. Trata-se de “Arcaz de um barriga verde”, publicado em Florianópolis em 1933, reunindo 8 contos explorando fatos e figuras da antiga Desterro e da histórica Laguna, após a República Juliana. Arcaz é uma grande arca com gavetões usada em tempos dantes para guardar roupas, papéis e dinheiro, que ele achou apropriado para guardar seus escritos. O exemplar foi doado por Henrique Boiteux para a Biblioteca do Grupo Escolar Daniel do Amaral, em 7 de Junho de 1942. O estabelecimento de ensino deixou de existir e o livrinho passou por sebos e várias mãos até parar no acervo do promotor pública aposentado e escritor regionalista que tive o privilégio de contar entre meus amigos.


ESQUECIMENTO


Entre os contos de José Boiteux avulta “Anninha do Bentão” como era conhecida em Laguna, Anita Garibaldi, que já havia falecido na Itália. Mostra como muitos se recusavam a aceitá-la como heroína a filha da terra, pobre e desvalida, nascida em Morrinhos, moradora de casa de “porta e janela” e que mal fora notada antes de suas façanhas que correram mundo. Mesmo louvada pelos grandes jornais do Rio e Lisboa como “legendária, guerreira, intrépida amazona, heroína de dois mundos”, havia os que ironizavam e duvidavam apontando o esquecimento que estava a recair sobre ela. Só não concordava o boticário João Mendes, cujas palavras proféticas o tempo se encarregou de comprovar. Laguna passou a pleitear até por meios judiciais a condição de terra natal de Anita. Conseguiu a sentença favorável pelos elementos de prova. O boticário comemorou: “Ah! Tudo muda, tudo mudará, meus amigos, e então Anita Garibaldi, Raphael Bandeira e outros serão devidamente homenageados”. Mais adiante explode de indignação: “Anninha do Bentão! Anninha do Bentão! Para os diabos que os carreguem! Heroína dos dois mundos, quer queiram, quer não queiram, é o que ella já é e há de ser enquanto o mundo for mundo”. O modesto boticário interiorano afrontava o estranho pudor aqui do sul que nos impede de reconhecer e proclamar os valores locais que acabam no esquecimento.


INDIGENA


O estilo de José Boiteux é clássico conservador, bem à moda da sua época. Faz uma concessão ou outra, como “pra”, com o objetivo de se tornar mais coloquial. Escreveu com mais leveza que outros autores de seu tempo e até posteriores. Soube explorar o humor, o insólito, o ridículo. Foi conhecedor das técnicas e táticas do autor de ficção e usou o diálogo com desenvoltura. Seu texto transmite bem o clima da época e retrata com fidelicade os locais em que as narrativas foram ambientadas. Palavras, expressões e hábitos aplicados por ele com rigoroa precisão caíram em desuso com as mudanças da linguagem literária. Nada, porém, atrapalho o contato do leitor com seus excelentes contos. Talvez nunca surja um biógrafo e ele só fique conhecido pelo nome da cidade do Alto Vale, que abriga Terra Indígena..



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

GERMÂNICA

DEMITIDOS

ELEIÇÕES